sábado, fevereiro 10, 2007

life's such a tremendous moment

Entrava na casa vazia, sem móveis, fria. Ela. Movimentada pelo tempo sentia de olhos fechados que ventava muito. Escurecera. Acordou. Desceu as escadas, tudo era silêncio. Saiu da casa sem fechar a porta, com sono. Atravessou a rua e caminhando percebeu-se em uma neblina intensa, impossível de enxergar o próprio sapato. Com receio de atravessar, pensou na morte. Em ser atropelada por um carro, por uma motocicleta ou por uma bicicleta. Cruzou.
Conversas paralelas a faziam perceber o tanto que ainda não compreendia o mundo, que eram muitas as diferenças, culturas e modos de ver as coisas. Muito menos tolerante do que aparentemente imaginara.
Em um daqueles instantes de intenção libertária se viu circular junto a amontoados de gentes, milhares correndo pelas ruas e se enroscando entre as faixas de pedestres e ônibus abarrotados.
Entrava na casa vazia, com sono, desestruturada. Fazia anos chorava quase todas as noites. Seria infeliz? Não faria esta pergunta, vivia e contava com pequenos fragmentos do passado para se orientar, fragmentos que ajudavam a construir uma idéia de real bem particular. Conversava com o mundo e atenta aos outros se moldava e mudava de cor, de tom, de forma.

Um dia olhou-se no espelho, do espelho olhou ao redor da sala, pensou sobre os objetos que via, sobre a cor da parede, o buraco de cigarro no puff marron de couro meio descosturado. O barulho da cidade, o telefone da vizinha tocava sem parar, todos os dias ela ouvia por horas aquela gargalhada ao telefone. Havia um casal no prédio da frente, da sua janela da sala os via almoçar na varanda. Comportamento estranho ver aquela gente cortando o bife e passando azeite no tomate, quase de frente para a janela alheia. Uma vez pensou em perguntar pelo saleiro, poderia tê-lo pego com as próprias mãos. Dentro do espelho via-se na sala, a imagem ia mudando de forma ao fazer aquela brincadeira que aprendeu pequena, não piscar até toda imagem se transformar no irreconhecível. Concentrada, sentiu: a garganta raspava. Entrou na cozinha e tomou uma aspirira. Tem chovido, pegou uma gripe.
A água no copo foi brutamente invadida pela aspirina c efervescente. Enquanto borbulhava, a vizinha gargalhava ao telefone. Engoliu enojada.
Passou por todas as ruas até chegar a uma loja de produtos animais onde peixinhos estavam à venda em aquários miniaturas. Tinha algo que definitivamente não gostaria de encarnar, um desses peixinhos amarelos que acabam em aquários pequenos com vidros aos quatro cantos. Pensava se peixe teria uma milésima possibilidade de memória. Existe um peixe desses pequenininhos de aquários miniaturas que é suicida. Teve um quando pequena, pulou forte do aquário e caiu no ralo da pia do banheiro. Esse teve memória sim. Agonia deve dar se ver naquele vidrinho dentro do aquário.


Atravessou a rua e olhou o mendigo deitado na calçada, fedia, estava imundo. Passou sem respirar, aquilo enojava mais que a vizinha, mais que a aspirina c efervescente.
Entrou na casa e não sentiu mais a garganta. Silêncio. A aspirina efervescente funcionou. Chorou e dormiu.



imagem: Edvard Munch, Red and White, 1894.

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