quinta-feira, janeiro 15, 2009

FLUTUANTES


Foi apresentada ao bosque. O bosque parecia infinito, tecido por montanhas verdes, árvores e folhas de todas as formas e tons. Dentro do bosque, percorreria um caminho. O caminho era fácil saber por onde seguir, ele trazia as partes de um todo. Era rodeado por seres atentas e contemplativas. Moldadas e desgastas por saturno, imóveis, recebiam a luz do sol, a chuva forte, raios e trovões e o pouso de voadores, enquanto observavam os visitantes.
Durante o caminho, olhares seguiam os passos dos curiosos que também a olhar eram levados, após cada respiro, a continuar o trajeto. Imagens que traziam em sua plástica concreta e branca um mundo onde natureza e in.ter.venção humana conversavam pacificamente.

Enquanto andava pela passagem pôde ouvir, a princípio de fininho, um ssssom sssssuave, e o reconhecera. À medida que percorria as formas, sua força e seu tom aumentavam. Misturavam por entre os pássaros, o barulho dos ventos, por entre o meio das folhagens nas árvores. Lá protegida por Ártemis, Atená, Héstia, Hera, Ceres, Perséfane e Afrodite, estava a arena. Vazia. Era de tijolos marrons apagados, lembrava o passado. Cheirava o passado. Ocupou-a. Seu som propagava no vazio, mergulhando sobre o palco em madeira; o que se podia fazer com aquele instante era dar as mãos para ali tocar.

Um palco. Sensações. Foi chamada a investigar. Teve receio. Portas gemiam e ela temeu o escuro. Arremeteu-se por entre os corredores. Receio. Ao ver a luz novamente por entre janelas retangulares e altas descobriu um grande espelho e ao lado um piano negro encoberto por mantas brancas. Mirou-se e iniciou a dançar timidamente. Como se dentro dela não soubesse do desejo e da vontade de percorrer todos os cantos daquele salão a preenchê-lo, a cantar, a sorrir e a dançar pelo espaço... mas hesitou.

Outra passagem. Sabia ela que esta a levaria ao palco. Naquele momento, o medo do corredor escuro dava espaço à brincadeiras sobre o gemer da porta. Fitou-a e viu ser aberta - rrriiiiiiiii - estridente, como algo pouco acessado, que necessita molas melhores para deslizar. Estava no palco, olhava o palco, o palco era a arena, a arena protegida pelas mulheres-deusas. Ao seu redor, cadeiras vermelhas de couro a fitavam. A música alta no meio da arena a fez sonhar, ser uma nuvem, uma folha solta da árvore, deslizante sobre a madeira, observada pelas vermelhas poltronas.
No meio da floresta, a arena encenava o bosque encantado. No meio da arena, a mulher encenava seu desejo. (e por alguns instantes capturou-o com a máquina digital. virou um curta.)

Encantado também era o silêncio. Do alto da montanha que parecia a mais alta, observou o horizonte, flutuou sobre o solo, escutou as árvores empurradas pelo vento falarem, elas contavam segredos à medida que ouviam os nossos. Longos e escondidos segredos, contados baixinnho, como o sutil barulho do vento chuuuuuuu chuuuuuu chuuuuuuuu.

Com os olhos fechados sentiu a sinfonia, saiam e entravam os instrumentos; passarins, besouros, mosquitos, cigarras, folhas, o sol, a grama, o corpo ao chão, a pele queimando.

E foi completa e eterna. E durou como aquele momento.


Imagem Gustav Klimt.
Avenue in Schloss Kammer Park, 1912.

segunda-feira, março 03, 2008

CASA DE CULTURA E CIDADANIA

quinta-feira, novembro 01, 2007

Ou, quantas páginas seriam necessárias para descobrir um caminho


Sensação aberta para um algo novo, que vem sem resposta.
Hoje, pela primeira vez, permitiu que seu corpo trouxesse lembranças que por tanto remediara, driblara, entorpecera.
Por tanto tempo não havia deixado e pensava controlar.
Pensava manter os pés fortes, a vontade do andar e a forma do mover; que olhar bastaria para decidir aonde chegar.
O tempo, no entanto, trouxe a incerteza das coisas e com ela a dor no meio do estômago, dessa insignificância enganosa chamada vontade.
Caíram as ruas, os cheiros, as pessoas e as paisagens, caíram também os caminhos planejados e até então coerentemente construídos.
O medo do novo estagnanou ações e assim, a lua foi vista por entre todas as circunferências, até voltar ao primeiro ponto do olhar.
Pessoas erradas e apenas pessoas. Não se estar preparado para elas, algo outro surpreendente, para quem conseguia se equilibrar e reconhecer códigos e signos de tantas coisas diferentes, seria alí a esbarrar na incompreensão de si pelo outro?

E durante e com, sem certezas, aquela vontade vestida noutra fantasia, noutra aparência, caiu, deu na cara, na frente, vinda d’um lugar onde não se esperava. Como se fosse sempre de direito, apareceu e desenhou relações entre o imaginário e o prazer compostos por cores, soons, formas e créditos. Daquilo foi-se a outro, ao outro já era então parte das incertezas que encontrara novos caminhos.

Hoje, passou pelo medo, apertou braços e sentiu o peito torcer, a cabeça não ter tempo de governar e o corpo colocar para fora, colocar tudo para fora, sem pedir permissão ou explicar, como se dissesse: agora pode ir, vá e entenda,

que não há nada a ser controlado.
imagem: Bacon, Head VI, 1949

quarta-feira, outubro 31, 2007

Associação Livre realiza ciclo de cinema ao ar livre nesta sexta e sábado na Concha Acústica



Pela primeira vez em Londrina será exibida a coleção completa dos premiados filmes do Projeto Juro que Vi. As exibições dos filmes que contam em desenho animado as lendas brasileiras são do Cinemanima, evento que acontece em vários pontos da cidade

A Associação Livre* iniciou nesta segunda-feira na zona rural de Londrina o ciclo de exibição gratuita de animações Cinemanima. Alunos da Escola Municipal Egydio Terziotti do Patrimônio Regina assistiram aos filmes do Projeto Juro que Vi, série de desenhos animados produzidos pela MULTIRIO (Empresa Municipal de Multimeios da Prefeitura do Rio de Janeiro).

Os curtas-metragens revelam a riqueza do folclore brasileiro e a capacidade de ser reinventado a cada transmissão oral. A criação dos filmes é feita em parceria de profissionais do cinema e alunos de escolas municipais do Rio de Janeiro.

O filme do projeto Juro que Vi “O Curupira”, vencedor do prêmio de melhor Animação Brasileira de júri popular do Festival Anima Mundi, melhor Animação e Direção no Cine PE Festival do Audiovisual, e melhor filme no Amazon Festival pode ser visto aqui .

Também fazem parte do Cinemanima “Iara”, “O Boto” e “Matinta Pereira”, que acaba de levar os prêmios de melhor cenografia e melhor trilha sonora no Festival de Animação de Gramado.Os curtas foram exibidos nesta terça no gramado do Centro de Ciências Humanas (CLCH) da UEL e podem ser vistos às 20h desta sexta-feira na Concha Acústica.

Realizado pela Associação Livre com apoio institucional do Centro de Documentação e Pesquisa História (CDPH/UEL), Ilustres Idéias (PROMIC), Secretaria de Cultura de Londrina e Prefeitura da Cidade do Rio de Janeiro/MULTIRIO, o Cinemanima, que está na programação da 5ª. Mostra Ilustres Idéias, pretende difundir o cinema de animação na cidade. O evento gratuito quer levar a públicos que dificilmente têm acesso a esta linguagem filmes em animações de qualidade para mostrar que há ótimos animadores no País e que é possível fazer cinema de forma criativa e estimulante sem muitos recursos.

Programação do Cinemanima

2/11 Juro que Vi na Concha Acústica, às 20h

3/11 Animações nacionais e Internacionais na Concha Acústica, às 20h

6/11 Animações nacionais e Internacionais no gramado do CLCH/UEL, às 20h

7/11 Juro que Vi no Patrimônio Selva, às 14h

8/11 Juro que Vi no Centro Cultural da Zona Norte, às 15h30

9/11 Juro que Vi no Patrimônio Espírito Santo, às 9h45

* Fazem parte da Associação Livre Gabriela Canale, artista plástica e jornalista, Guilherme Baracat, designer e animador, Lara Haddad, arte-educadora e artista plástica e Regina Egger Pazzanese, produtora e historiadora.

quinta-feira, outubro 04, 2007

RE(DE)GENERE




Vídeo que integra a arte instalação da Associação Livre para o evento “Memórias do Nazismo: 70 anos da Exposição Entartete Kunst (Arte Degenerada)”, ocorrido na Universidade Estadual de Londrina, semana passada.

quarta-feira, agosto 01, 2007

DON'T PANIC.

There's no time at all. I'm moving.

SORRY... there's nothing to see right know.

NO entertainment. NO messages. NO images.

dot

GO!

segunda-feira, maio 28, 2007

Regina, adorei suas respostas. Contudo, neste formato, só vai dar pra publicar na sessão de cartas.



Amigas e amigos, há um tempo não posto no Blog. Porém, esta ai não podia deixar de compartilhar...

Essa semana um amigo, com a melhor das intenções, me disse:
- Puxa Regina, você escreve tão bem né?! É cheia de idéias e tal. Eu tenho um amigo que organiza uma coluna no Jornal, chama 'Se eu fosse'.
- Um, se eu fosse... respondo duvidosa.
- É, escreve algo lá pra ele, eu vou mandar um e-mail falando ao seu respeito, vai ser bacana.

O jornalista me responde no mesmo dia, simpático, pede para eu escrever o que eu faria Se eu fosse o presidente da república.

Vamos ai ao texto. E vamos ai depois à resposta do jornal.

"Se eu fosse Presidente...
O leitor pode imaginar, antes mesmo de percorrer estas linhas, as possíveis respostas à fictícia suposição proposta pelo jornal: Ah, se eu fosse o presidente da república brasileira...
O cidadão comum, assim como eu, caro leigo dos meandros operacionais que regem um Estado democrático, poderá divagar sobre as raízes dos problemas brasileiros e de como, sendo um presidente, saná-las. Pensará sobre a falta de perspectiva do povo brasileiro em lidar com uma série de empecilhos entendidos como culpa do Estado. De ordem econômica: impostos, tributos, encargos, a taxa do dólar – os que acham bom estar baixa, os que acham bom estar alta - a especulação bancária internacional. No âmbito social, o desemprego, a violência, as falhas do sistema em relação à educação e à saúde; e na política, a corrupção, a propina, a fraude e a indiferença dos governantes.
Quando parto deste panorama, me vem à mente uma leve sensação de ter sido enganada. Quem nos convenceu de que votar resolveria os problemas apontados acima, nos iludiu. Assim como o carnaval, se fantasiou, colocou uma música bonita, se encheu de alegorias, máscaras e frases barrocas e deixou a sensação de felicidade no ar.
Quem poderia e deveria reivindicar mudanças na estrutura sociocultural de uma nação como a brasileira não se encontra no executivo, no legislativo nem no judiciário. São necessárias outras instâncias de organização e meu papel, não como presidente, mas enquanto cidadã seria fazer parte delas. Penso sobre a sociedade civil. Sem a intenção de propor que o povo se apodere do Estado, pois as instituições, assim como os cidadãos, têm uma função a exercer dentro das relações políticas. No entanto, seria preciso entender a atuação da coletividade em busca de novos caminhos. Exercitar a autonomia civil traria enquanto perspectiva experimentar diferentes lógicas de relacionamento. Desde os pequenos espaços da vida comum até ambientes onde o cidadão possa exercer maior influência, a proposta seria modificar a forma de encarar as coisas. A iniciativa de dar um passo diferente e enxergar que a relação com o próximo e com as questões socioculturais representam não apenas como uma sociedade se projeta, mas também, como ela se enxerga e se realiza.
Para isso, um bom primeiro passo seria desligarmos a televisão, porque ficamos às vezes quatro, cinco horas acumulando uma falsa sensação de tranqüilidade em frente a ela. Uma segunda e importante ação seria começar a acreditar que é possível fazer a diferença e que culpar o Estado, ou o presidente, é o caminho lógico que nos foi ensinado, assim como o voto, a nos manter desligados daquilo que também deveria ser nosso papel construir."

Eis a resposta imediata ao meu artiguinho: Regina, tudo jóia? Adorei suas respostas e recebi seus dados pessoais. Contudo, um problema- eu precisaria, no texto, que vc contextualizasse com projetos, idéias, no estilo "eu faria", "eu implementaria", etc etc. Por exemplo- escolher a idéia de desligar a televisão e, não sei, criar uma lei, ou alternativas que afastem as pessoas da TV. Algo que fosse projeto seu, sabe, seja para a educação, fome, enfim.. sabe? Da forma que está, teríamos que publicar nas cartas.

The End.

Imagem: um macaco lendo um jornal, 2007.