segunda-feira, novembro 20, 2017

Primeira Vez



Parte I. Memória

Tinha essa imagem na memória
Corria o corpo toda vez que lembrava,
do beijo, do sorriso no canto da boca, dos sons
do jeito que ele olhava.
Viveu dias com o que aquela lembrança provocava
andava e transpirava, íntima
dormia dolorida por dentro, de vontade.

Logo entendeu, teria que saciá-la por conta
Viu-se envolta em uma auto-suficiência incômoda,
que a fez sentir ora mágoa, ora força
dessa mistura, emanava.
Entendeu depois que logo se veriam
imaginou se aquela vontade toda ainda estaria lá,
de tanta que era, esperava.


Parte II. Caminhos Conhecidos

Como imaginado, a vontade bruta sublimada, tranquilizou o momento.
Enfim, a memória descansaria enquanto o encontro real existia.

Escolheram um lugar antigo, bem conhecido,
tão visitado que atravessaram a rota sem nem precisar de referência.

Naquela noite, caminhos conhecidos se fariam bem explorados,
um mostrando um pouco do seu preferido ao outro.
Havia por certo a expectativa dela por algo a ser inventado,
algo fora do percurso, por ela já intuido,
queria levar aquele olhar junto, mas sabia, não iria,
não em uma noite, não naquela.

Sabia também, algumas pistas do trajeto eram guardadas no outro,
pistas as quais ele talvez nem pensasse que possuía,
ou que poderia descobri-las, ou inventá-las.
Se viu então vencida.
Pedidos eram difíceis ali, não seriam entregues,
não em uma noite, não naquela.

Entendeu, seria em vão
ficar nas tais percorridas e testadas estradas
enfim, seria bom mesmo assim,
não deixavam de ser, afinal, seus caminhos preferidos
Era bastante? Por certo, pouco não era.

Parte III. Amor azul-celeste

Azul-celeste era a cor preferida
azul em forma landscape,
que emoldura na paisagem a dimensão do olhar

Azul em forma onírica, que esconde a imensidão infinita
de uma galáxia em eterna expansão
Azul celeste que brilha e recorta as nuvens turvadas no céu
ah, céu, esse mistério, de incertezas, imprevistos, reviravoltas
Assim, amor azul-celeste, assim como meu sentimento-amor,
expansivo, absorto e universal
Num universo negro a engolir luz, som e tempo, vivo
Vivo para tornar-se, enfim, poeira nas estrelas.


(Imagem: Paul Klee, 1922)

Com Você




Veio de lá o pedido por um não amor,
era apenas casual, mas também não era
Como se algo assim se moldasse
na argila híbrida do sentimento.

Vinha de lá um querer assim nem tanto
mas que no tempo ficava, com o tempo permanecia
fosse Joana ou Maria, tanto fazia.

Dessa permanência, mantinha o meigo flutuar de uma correnteza,
abria caminho, inebriava,
convidava à fluidez quase irresistível, de um espelho límpido,
do reflexo da incerteza.

Ser mantenedor de uma vontade densa,
tal e qual, ainda que surpreendentemente, coesa.

Escreveu, imaginou, quase nunca fez
sentiu, amou, como nunca fez,
construiu, viveu, o que nunca fez
Com você.

(Imagem: Van, Irises, 1989)

Abaixo da Linha D'água



Parte I. Olhar 
Dizem que o olhar é a porta de entrada da alma 
E quando não? 
Do coração é que fala a alma, 
E daquele olhar que revela outrora aquilo que não se sente, 
Ora encanta, ora apavora. 

Já o tempo, confidente da alma, 
Que de tanta constância separa o sim do não, 
Em segredo sabedor guarda e entende 
Do que o olhar sustenta o que chega do coração. 


Parte II. Reunião 
Naquele dia portas batiam, acordos aconteciam, despachos subiam, 
Corpos e sapatos em gestos altos e abruptos 
Ocupavam os corredores com seres velozes e frenéticos 
Por acordos afins e seus despachos. 

Enquanto na sala de reunião, 
Submersos, abaixo da linha d'água 
Mergulhados no invisível e no etéreo 
que nunca havia deixado de existir entre os homens 
turvos na profunda dimensão daquele instante, 
o silêncio encontrava a vontade: 
de que por trás daqueles olhos 
dois sorrisos ligeiros conduziam ao dado, 
o qual deveriam mesmo 
era estarem se comendo, na sala logo ali ao lado.

(Imagem: Marc Chagall, 1955)

quinta-feira, janeiro 15, 2009

Flutuantes

Flutuantes


Foi apresentada ao bosque. O bosque parecia infinito, tecido por montanhas verdes, árvores e folhas de todas as formas e tons. Dentro do bosque, percorreria um caminho. O caminho era fácil saber por onde seguir, ele trazia as partes de um todo. Era rodeado por seres atentas e contemplativas. Moldadas e desgastas por saturno, imóveis, recebiam a luz do sol, a chuva forte, raios e trovões e o pouso de voadores, enquanto observavam os visitantes. 
Durante o caminho, olhares seguiam os passos dos curiosos que também a olhar eram levados, após cada respiro, a continuar o trajeto. Imagens que traziam em sua plástica concreta e branca um mundo onde natureza e in.ter.venção humana conversavam pacificamente.

Enquanto andava pela passagem pôde ouvir, a princípio de fininho, um ssssom sssssuave, e o reconhecera. À medida que percorria as formas, sua força e seu tom aumentavam. Misturavam por entre os pássaros, o barulho dos ventos, por entre o meio das folhagens nas árvores. Lá protegida por Ártemis, Atená, Héstia, Hera, Ceres, Perséfane e Afrodite, estava a arena. Vazia. Era de tijolos marrons apagados, lembrava o passado. Cheirava o passado. Ocupou-a. Seu som propagava no vazio, mergulhando sobre o palco em madeira; o que se podia fazer com aquele instante era dar as mãos para ali tocar. 

Um palco. Sensações. Foi chamada a investigar. Teve receio. Portas gemiam e ela temeu o escuro. Arremeteu-se por entre os corredores. Receio. Ao ver a luz novamente por entre janelas retangulares e altas descobriu um grande espelho e ao lado um piano negro encoberto por mantas brancas. Mirou-se e iniciou a dançar timidamente. Como se dentro dela não soubesse do desejo e da vontade de percorrer todos os cantos daquele salão a preenchê-lo, a cantar, a sorrir e a dançar pelo espaço... mas hesitou. 

Outra passagem. Sabia ela que esta a levaria ao palco. Naquele momento, o medo do corredor escuro dava espaço à brincadeiras sobre o gemer da porta. Fitou-a e viu ser aberta - rrriiiiiiiii - estridente, como algo pouco acessado, que necessita molas melhores para deslizar. Estava no palco, olhava o palco, o palco era a arena, a arena protegida pelas mulheres-deusas. Ao seu redor, cadeiras vermelhas de couro a fitavam. A música alta no meio da arena a fez sonhar, ser uma nuvem, uma folha solta da árvore, deslizante sobre a madeira, observada pelas vermelhas poltronas.
No meio da floresta, a arena encenava o bosque encantado. No meio da arena, a mulher encenava seu desejo. (e por alguns instantes capturou-o com a máquina digital. virou um curta.)

Encantado também era o silêncio. Do alto da montanha que parecia a mais alta, observou o horizonte, flutuou sobre o solo, escutou as árvores empurradas pelo vento falarem, elas contavam segredos à medida que ouviam os nossos. Longos e escondidos segredos, contados baixinnho, como o sutil barulho do vento. 

Com os olhos fechados sentiu a sinfonia, saiam e entravam os instrumentos; passarins, besouros, mosquitos, cigarras, folhas, o sol, a grama, o corpo ao chão, a pele queimando. 


E foi completa e eterna. E durou como aquele momento.



Imagem Gustav Klimt. Avenue in Schloss Kammer Park, 1912.

quinta-feira, novembro 01, 2007

Ou, quantas páginas seriam necessárias para descobrir um caminho

Ou, quantas páginas seriam necessárias para descobrir um caminho



Sensação aberta para um algo novo, que vem sem resposta.
Hoje, pela primeira vez, permitiu que seu corpo trouxesse lembranças que por tanto remediara, driblara, entorpecera.
Por tanto tempo não havia deixado e pensava controlar.
Pensava manter os pés fortes, a vontade do andar e a forma do mover; que olhar bastaria para decidir aonde chegar.
O tempo, no entanto, trouxe a incerteza das coisas e com ela a dor no meio do estômago, dessa insignificância enganosa chamada vontade.
Caíram as ruas, os cheiros, as pessoas e as paisagens, caíram também os caminhos planejados e até então coerentemente construídos.
O medo do novo estagnanou ações e assim, a lua foi vista por entre todas as circunferências, até voltar ao primeiro ponto do olhar.
Pessoas erradas e apenas pessoas. Não se estar preparado para elas, algo outro surpreendente, para quem conseguia se equilibrar e reconhecer códigos e signos de tantas coisas diferentes, seria alí a esbarrar na incompreensão de si pelo outro?

E durante e com, sem certezas, aquela vontade vestida noutra fantasia, noutra aparência, caiu, deu na cara, na frente, vinda d’um lugar onde não se esperava. Como se fosse sempre de direito, apareceu e desenhou relações entre o imaginário e o prazer compostos por cores, soons, formas e créditos. Daquilo foi-se a outro, ao outro já era então parte das incertezas que encontrara novos caminhos.

Hoje, passou pelo medo, apertou braços e sentiu o peito torcer, a cabeça não ter tempo de governar e o corpo colocar para fora, colocar tudo para fora, sem pedir permissão ou explicar, como se dissesse: agora pode ir, vá e entenda,

que não há nada a ser controlado.
imagem: Bacon, Head VI, 1949

quarta-feira, outubro 31, 2007

Associação Livre realiza ciclo de cinema ao ar livre nesta sexta e sábado na Concha Acústica

Associação Livre realiza ciclo de cinema ao ar livre nesta sexta e sábado na Concha Acústica



Pela primeira vez em Londrina será exibida a coleção completa dos premiados filmes do Projeto Juro que Vi. As exibições dos filmes que contam em desenho animado as lendas brasileiras são do Cinemanima, evento que acontece em vários pontos da cidade
A Associação Livre* iniciou nesta segunda-feira na zona rural de Londrina o ciclo de exibição gratuita de animações Cinemanima. Alunos da Escola Municipal Egydio Terziotti do Patrimônio Regina assistiram aos filmes do Projeto Juro que Vi, série de desenhos animados produzidos pela MULTIRIO (Empresa Municipal de Multimeios da Prefeitura do Rio de Janeiro).
Os curtas-metragens revelam a riqueza do folclore brasileiro e a capacidade de ser reinventado a cada transmissão oral. A criação dos filmes é feita em parceria de profissionais do cinema e alunos de escolas municipais do Rio de Janeiro.
O filme do projeto Juro que Vi “O Curupira”, vencedor do prêmio de melhor Animação Brasileira de júri popular do Festival Anima Mundi, melhor Animação e Direção no Cine PE Festival do Audiovisual, e melhor filme no Amazon Festival pode ser visto aqui .
Também fazem parte do Cinemanima “Iara”, “O Boto” e “Matinta Pereira”, que acaba de levar os prêmios de melhor cenografia e melhor trilha sonora no Festival de Animação de Gramado.Os curtas foram exibidos nesta terça no gramado do Centro de Ciências Humanas (CLCH) da UEL e podem ser vistos às 20h desta sexta-feira na Concha Acústica.
Realizado pela Associação Livre com apoio institucional do Centro de Documentação e Pesquisa História (CDPH/UEL), Ilustres Idéias (PROMIC), Secretaria de Cultura de Londrina e Prefeitura da Cidade do Rio de Janeiro/MULTIRIO, o Cinemanima, que está na programação da 5ª. Mostra Ilustres Idéias, pretende difundir o cinema de animação na cidade. O evento gratuito quer levar a públicos que dificilmente têm acesso a esta linguagem filmes em animações de qualidade para mostrar que há ótimos animadores no País e que é possível fazer cinema de forma criativa e estimulante sem muitos recursos.
Programação do Cinemanima
2/11 Juro que Vi na Concha Acústica, às 20h
3/11 Animações nacionais e Internacionais na Concha Acústica, às 20h
6/11 Animações nacionais e Internacionais no gramado do CLCH/UEL, às 20h
7/11 Juro que Vi no Patrimônio Selva, às 14h
8/11 Juro que Vi no Centro Cultural da Zona Norte, às 15h30
9/11 Juro que Vi no Patrimônio Espírito Santo, às 9h45
* Fazem parte da Associação Livre Gabriela Canale, artista plástica e jornalista, Guilherme Baracat, designer e animador, Lara Haddad, arte-educadora e artista plástica e Regina Egger Pazzanese, produtora e historiadora.

quinta-feira, outubro 04, 2007

Re(de)genere

RE(DE)GENERE



Vídeo que integra a arte instalação da Associação Livre para o evento “Memórias do Nazismo: 70 anos da Exposição Entartete Kunst (Arte Degenerada)”, ocorrido na Universidade Estadual de Londrina, semana passada.

domingo, abril 22, 2007

Llega a los treinta sin cualquier verdad absoluta que valla morrirse por

Llega a los treinta sin cualquier verdad absoluta que valla morrirse por
Hace tiempo quiere aprender ruso, ahora, sabes que aún lo sepas, deberás asimismo soñar en griego y latino.
No porque uno le dijo. No porque intentas impresionar sus amigos. Para lograr mejor las formas de lenguaje que quiera dominar. El dominio de algo que no va hacer sus maneras autoritarias malograren alguién.
Su caracteristica de autoridad le hace así. Vaya sorver todo lo que pueda con su mente y no tendrá la jovial voluntad de hallar nada por definido.

Uno hoy sabes que sólo resta reír. De todo que pasa alrededor y comprende que Shakespeare fué más que un genio literario. Hubo algo alla del cielo. Hay mucho adelante las personas, las cosas, las palavras y las miradas. Es una busqueda eterna por lacunas y espacios vazios llenos de verdaderas respuestas.

Uno hoy intenta mirar la belleza de no saber que vas a pasarse mañana. Pués no reluta frente al minuto siguiente.
No hay más verdades eternas por morirse
Pero mucho por aprovechar,
Las cosas pasajeras, el momiento solo,
Saber que nadie podrá cambiar sus impresiones.
En el despertar temprano
Respira y camina siempre el nuevo,
No mira la tele
Lee cosas que ya se fueron
Dase cuenta de lo diverso existente,
Y cuanto al existir, es mutable.
Un día pensará estar mejor
De vida, de empleo, de amor;
No sabrá como fuera
La memória e las sensaciones se fundirán
Construirá su pasado para justificar su presente.
Uno piensase inseguro,
Pero no viver intentando corregir
Trae ventajas:
Solo aprovecha quién lo percibe.


Imagen David Salle, Childhood, 1998.

sábado, fevereiro 10, 2007

Life's such a tremendous moment

Life's such a tremendous moment
Entrava na casa vazia, sem móveis, fria. Ela. Movimentada pelo tempo sentia de olhos fechados que ventava muito. Escurecera. Acordou. Desceu as escadas, tudo era silêncio. Saiu da casa sem fechar a porta, com sono. Atravessou a rua e caminhando percebeu-se em uma neblina intensa, impossível de enxergar o próprio sapato. Com receio de atravessar, pensou na morte. Em ser atropelada por um carro, por uma motocicleta ou por uma bicicleta. Cruzou.
Conversas paralelas a faziam perceber o tanto que ainda não compreendia o mundo, que eram muitas as diferenças, culturas e modos de ver as coisas. Muito menos tolerante do que aparentemente imaginara.
Em um daqueles instantes de intenção libertária se viu circular junto a amontoados de gentes, milhares correndo pelas ruas e se enroscando entre as faixas de pedestres e ônibus abarrotados.
Entrava na casa vazia, com sono, desestruturada. Fazia anos chorava quase todas as noites. Seria infeliz? Não faria esta pergunta, vivia e contava com pequenos fragmentos do passado para se orientar, fragmentos que ajudavam a construir uma idéia de real bem particular. Conversava com o mundo e atenta aos outros se moldava e mudava de cor, de tom, de forma.

Um dia olhou-se no espelho, do espelho olhou ao redor da sala, pensou sobre os objetos que via, sobre a cor da parede, o buraco de cigarro no puff marron de couro meio descosturado. O barulho da cidade, o telefone da vizinha tocava sem parar, todos os dias ela ouvia por horas aquela gargalhada ao telefone. Havia um casal no prédio da frente, da sua janela da sala os via almoçar na varanda. Comportamento estranho ver aquela gente cortando o bife e passando azeite no tomate, quase de frente para a janela alheia. Uma vez pensou em perguntar pelo saleiro, poderia tê-lo pego com as próprias mãos. Dentro do espelho via-se na sala, a imagem ia mudando de forma ao fazer aquela brincadeira que aprendeu pequena, não piscar até toda imagem se transformar no irreconhecível. Concentrada, sentiu: a garganta raspava. Entrou na cozinha e tomou uma aspirira. Tem chovido, pegou uma gripe.
A água no copo foi brutamente invadida pela aspirina c efervescente. Enquanto borbulhava, a vizinha gargalhava ao telefone. Engoliu enojada.
Passou por todas as ruas até chegar a uma loja de produtos animais onde peixinhos estavam à venda em aquários miniaturas. Tinha algo que definitivamente não gostaria de encarnar, um desses peixinhos amarelos que acabam em aquários pequenos com vidros aos quatro cantos. Pensava se peixe teria uma milésima possibilidade de memória. Existe um peixe desses pequenininhos de aquários miniaturas que é suicida. Teve um quando pequena, pulou forte do aquário e caiu no ralo da pia do banheiro. Esse teve memória sim. Agonia deve dar se ver naquele vidrinho dentro do aquário.


Atravessou a rua e olhou o mendigo deitado na calçada, fedia, estava imundo. Passou sem respirar, aquilo enojava mais que a vizinha, mais que a aspirina c efervescente.
Entrou na casa e não sentiu mais a garganta. Silêncio. A aspirina efervescente funcionou. Chorou e dormiu.



imagem: Edvard Munch, Red and White, 1894.

sexta-feira, dezembro 22, 2006

MomEntoy_Udanza

MomEntoy_Udanza

No ser livre existe uma quantidade infinita de sentir. A mudança do ser e sua velocidade está diretamente ligada à disposição para o conflito e para a novidade.

Momento de refazer-se. Assim próximo ao meio da primeira parte da história coisas antes insuportavelmente enfadonhas se tornaram mais aceitáveis. Assim diziam mas nunca havia acreditado, era então.

A imagem preto e branco, luz forte que fecha os olhos e faz ver o esboço, esse foi o dia de hoje. Aquela cena de fotografia manual, a granulação na tela, o rolo de fotogramas passando velozmente e sendo projetado no vidro e depois no pano branco é algo quase infantil de se olhar. E segunda-feira estréia um filme de fantasia com o Jonh Malchovich, vendo dali, pareceu incrível.

****


De olho no rio que encontra o mar vejo a água mudando de cor,
O doce virando salgado, engolido pela espuma.
O peixe indeciso não sabe se volta ou se vai. O primeiro é seguro, menorzinho, o outro infinito, distante, escondido.
Com som de violência e intempestividade avança e muda o chão. Volta e recolhe o presente. Se mistura na terra de tantas diferentes pisadas
E deixa regalos para os atentos.
...deve ser a falta da praia.
Imagem: arquivo pessoal.

segunda-feira, novembro 13, 2006

[ ReverberAções ] : Participem!

[ ReverberAções ] : Participem!



[ ReverberAções ] vêm para Londrina para sua primeira edição com a proposta de discutir projetos e meios de gestão de cultura na cidade e sua projeção nacional e internacional. O debate contará com artistas, pensadores, críticos e curadores de arte com a finalidade de promover e gerir pensamento auto-crítico e formador de opinião para a atualidade e mapear as práticas culturais e artísticas que repercutem na cidade de Londrina.

Para as pessoas interessadas em saber mais sobre reflexões e práticas culturais e artísticas, o Seminário tem entrada gratuita e para quem assistir os debates será entregue Certificado de Participação.



O evento acontece na Casa de Cultura da UEL entre os dias 16 e 22 de novembro (Rua Mato Grosso, 537), a partir das 18 horas.
. . Confira a Programação . .

***16 NOV QUINTA 18h20
Recepção Lançamento da Publicação ReverberAções2006
17hs às 18hs - Mostra de Vídeos - Circuitos em Vídeo
19hs às 22hs - Seminário RITMOS DA URGÊNCIA: Roda de Abertura do Seminário

***17 NOV SEXTA
18hs às 20hs - Mostra de Vídeos
14h30 às 17h30hsSeminário RITMOS DA URGÊNCIA: Praticas Artísticas Atuais
***18 NOV SÁBADO14h30 às 17h30hs - Seminário RITMOS DA URGÊNCIA: Dinâmicas Culturais
18hs às 20hs - Mostra de Vídeos
***19 NOV DOMINGO14h30 às 17h30hs - Seminário RITMOS DA URGÊNCIA: Arte, Estética e Participação Política 18hs às 20hs - Mostra de Vídeos***20 NOV SEGUNDA17hs às 18hs – Mostra de Vídeos
19hs às 22hs - Seminário RITMOS DA URGÊNCIA: Novos Meios de Circulação, Novos Meios de Difusão
***21 NOV TERÇA17hs às 18hs - Mostra de Vídeos
19hs às 22hs - Seminário RITMOS DA URGÊNCIA: Relações Institucionais
***22 NOV QUARTA17hs às 18hs - Mostra de Vídeos
19hs às 22hs - Seminário RITMOS DA URGÊNCIA: Novas organizações e Economia


obs: Porque a gente não vive só de poesia e especulações...

segunda-feira, outubro 23, 2006

S e l f P o r t r a i t

S e l f P o r t r a i t


Começar hoje a ser quem quer se tornar. Mesmo sem ter conseguido ontem, nem dia algum. Mesmo que esta intenção seja algo pouco claro, misturado a uma série de valores e ideais selecionados dentro da própria cabeça - e do próprio coração.
Sem pretensões de estar certo, de agir da melhor forma, ou ser alguém perfeito. Olhar para dentro de si e ver a quantidade de coisas para mudar e saber que gastaria mais de uma vida para conseguir metade daquilo.
Ter coragem de ver no fundo d'alma e sentir uma tremenda insegurança e depois rir dela.
Rir das coisas da vida, das coisas difíceis, dos fatos imutáveis, de verdades incondicionais, dos enganos, dos foras, das dores, do medo de um dia perder a sensação de ser uma única impressão digital no mundo todo.
Mais um dia onde conseguiu manter o eixo e não desmoronar. Onde um pequeno teste só fez lembrar que as coisas ainda continuam acontecendo, num ritmo mais lento talvez, porém ali.
Ainda não deixou de existir, de pensar o que pensava antes, de tentar mudar, de se abrir para o desconhecido e de lembrar de tudo que já aconteceu.
A coragem já não é mais a mesma, as vezes, é bem menor. As vezes, é maior, impressionantemente mais concreta.
A saudade das pessoas vai se nivelando a uma saudade de bons momentos, será bom?
Algumas coisas apontam para novos caminhos e o novo garante certo otimismo. Uma sensação de reciclagem de pessoas e coisas que aos poucos ficam turvas, desaparem. Há muito mais em primeiro plano, coisas boas e com elas outras não tão boas. Mas coisas novas. Porque mudar é existir.
Devo maior parte da construção do meu caráter àqueles que mais me fizeram mal que bem. Ironicamente.
Espero ter ajudado alguns outros também através de erros. Ao verem uma atitude como algo que não deveria ser feito e algo a não ser copiado. É contribuição maior que ser espelho de alguém. Aquele que se admira, de alguma forma, não abre espaço para nos revelarmos de verdade. O medo da reprovação pode ser maior que a vontade de ser sincero.

Algumas atitudes vem de nascença. A excentricidade é uma delas, quando uno percebe já ficou difícil achar o diferente estranho, opta-se por ele, com clareza.
Dizem que a sedução nos deixa aparentemente mais tolerantes. Talvez a superficialidade das relações nos faça pensar conhecer o outro a ponto de delimitar suas complexidades e, porque não, seus antagonismos.


Mas se vence uma guerra com flores e há tempos o trabalho é a favor de olhar para o mundo de forma a superestimá-lo... Um passo à frente faz o Calar impressindível - e o Ouvir também.

O dia em que for apenas essa última frase terá alcançado boa parte do primeiro parágrafo.

imagem: Paul Klee, Senecio (Old Man), 1922.

segunda-feira, outubro 09, 2006

Caeiro em Três Tempos

Caeiro em Três Tempos














XLVI
DESTE MODO ou daquele modo,
Conforme calha ou não calha,
Podendo às vezes dizer o que penso,
E outras vezes dizendo-o mal e com misturas,
Vou escrevendo os meus versos sem querer,
Como se escrever não fosse uma cousa feita de gestos,
Como se escrever fosse uma cousa que me acontecesse
Como dar-me o sol de fora.

Procuro dizer o que sinto
Sem pensar em que o sinto.
Procuro encostar as palavras à idéia
E não precisar dum corredor
Do pensamento para as palavras.

Nem sempre consigo sentir o que sei que devo sentir.
O meu pensamento só muito devagar atravessa o rio a nado
Porque lhe pesa o fato que os homens o fizerem usar.

Procuro despir-me do que aprendi, Procuro esquecer-me do modo de lembrar que me ensinaram, E raspar a tinta com que me pintaram os sentidos, Desencaixotar as minhas emoções verdadeiras, Desembrulhar-me e ser eu, não Alberto Caeiro, Mas um animal humano que a Natureza produziu.

E assim escrevo, querendo sentir a Natureza, nem sequer como um homem, Mas como quem sente a Natureza, e mais nada.
E assim escrevo, ora bem, ora mal, Ora acertando com o que quero dizer, ora errando, Caindo aqui, levantando-me acolá, Mas indo sempre no meu caminho como um cego teimoso.

Ainda assim, sou alguém.
Sou o Descobridor da Natureza.
Sou o Argonauta das sensações verdadeiras.
Trago ao Universo um novo Universo
Porque trago ao Universo ele-próprio.

Isto sinto e isto escrevo
Perfeitamente sabedor e sem que não veja
Que são cinco horas do amanhecer
E que o sol, que ainda não mostrou a cabeça
Por cima do muro do horizonte,
Ainda assim já se lhe vêem as pontas dos dedos
Agarrando o cimo do muro
Do horizonte cheio de montes baixos.

XLVII

NUM DIA excessivamente nítido,
Dia em que dava a vontade de ter trabalhado muito
Para nele não trabalhar nada,
Entrevi, como uma estrada por entre as árvores,
O que talvez seja o Grande Segredo
Aquele Grande Mistério de que os poetas falsos falam.

Vi que não há Natureza,
Que Natureza não existe,
Que há montes, vales, planícies,
Que há árvores, flores, ervas,
Que há rios e pedras,
Mas que não há um todo a que isso pertença,
Que um conjunto real e verdadeiro
É uma doença das nossa idéias.
A Natureza é partes sem um todo.
Isto é talvez o tal mistério de que falam.

Foi isto o que sem pensar nem parar,
Acertei que devia ser a verdade
Que todos andam a achar e que não acham,
E que só eu, porque não a fui achar, achei.

XLVIII

DA MAIS ALTA janela da minha casa
Com um lenço branco digo adeus
Aos meus versos que partem para a humanidade.

E não estou alegre nem triste.
Esse é o destino dos versos.
Escrevi-os e devo mostrar-los a todos
Porque não posso fazer o contrário
Como a flor não pode esconder a cor,
Nem o rio esconder que corre,
Nem a árvore esconder que dá fruto.

Ei-los que vão já longe como que na diligência
E eu sem querer sinto pena
Como uma dor no corpo.

Quem sabe quem os lerá?
Quem sabe a que mãos irão?

Flor, colheu-me o meu destino para os olhos.
Árvore, arrancaram-me os frutos para as bocas.
Rio, o destino da minha água era não ficar em mim.
Submeto-me e sinto-me quase alegre,
Quase alegre como quem se cansa de estar triste.

Ide, ide de mim!
Passa a árvore e fica dispersa pela Natureza.
Murcha a flor e o seu pó dura sempre.
Corre o rio e entra no mar e a sua água é sempre a que foi sua.

Passo e fico, como o Universo.


texto: O Guardador de Rebanhos, Alberto Caeiro (Fernando Pessoa), 1911 - 1912.
imagem: Marc Chagall, Concert, 1930.

sábado, setembro 23, 2006

Reflexões Acerca do Amor

Reflexões Acerca do Amor


Sentimento fica mais fácil de expressar quando a gente escuta Chet Baker. Algumas cenas também nos deixam mais atentos a esse universo tão complexo; um beijo de alguém em uma festa, um casal rindo bobamente em situação qualquer, olhares que se cruzam de duas pessoas que não estão mais juntas, mas sabem que existe algo inacabado. Sentimento é aquele que engana, difícil de identificar, mesmo quando se olha fundo e se pergunta: como estou me sentindo hoje? Não existe incógnita maior do que prever o emocional.
Comentavam dias atrás que a namorada de um amigo havia voltado a morar na cidade, ela estava fora e essa condição acabou por separá-los. Durante meses ele disse não haver pessoa que o completasse mais. Era simplesmente a mulher perfeita e havia partido. Há duas semanas, com o seu retorno, os dois tem se encontrado para continuar tudo de onde pararam. E, de repente, ele percebeu que esse momento já não existe mais. Como isso acontece não se sabe, mas é muito interessante notar esta falta de controle a qual estamos todos à mercê. Comparação nada romântica, porém, assim como a morte, o amor não tem data, nem hora para acontecer. O sentimento é algo avesso à civilização ocidental moderna cartesiana e positivista. Deve ser por isso que temos estado tão mal nas estatísticas “matrimoniais”. Por ser tão variável e relativo acabamos nos perdendo, o check list das qualidades tem data de validade, depois o que fica são particularidades que às vezes apenas o casal consegue ver. Cientistas dizem ser hormonal, naturalistas dizem ser a necessidade da preservação da espécie, astrólogos dizem serem as influências cósmicas, os menos especialistas acham que foi o “momento certo”, aquele que nos torna mais ou menos suscetíveis para entrar em uma situação, meus pais chamam de “trombada” – o que me deixa extremamente feliz por eles, não é todo dia que denominamos uma relação como algo tão intenso. Contudo, não se escolhe, pensasse estar escolhendo. Um verdadeiro sentimento não tem razões segundas, não tem nada além dele mesmo. Só a vontade de estar junto porque nos deixa mais feliz e porque a presença do outro nos faz querer ser alguém melhor.
Assisti, hoje, um filme (americano) que contava a história desse casal que, apesar de se amar muito, não conseguia viver sob o mesmo teto. Os dois acabam por se separar e se encontram meses depois em uma rua qualquer. O sentimento entre eles ainda existe e tudo que poderia ter sido, simplesmente, não aconteceu. São situações, vemos histórias assim todos os dias. Quem tem a chance de viver uma relação até que ela se esgote, vinte, trinta anos, deveria se considerar realizado. Palavra difícil de encaixar nos dias de hoje. Nosso instinto destrutivo normalmente nos faz reconhecer o realizado logo após ele ter acabado.
Reflexões... Volto ao Chet, fica fácil ver o amor com ele. Toda palavra com certeza tem um beat.


imagem: Gustav Klimt, Love, 1985.

quinta-feira, setembro 07, 2006

L'Image, cela séduit

L'Image, cela séduit



L’instant de la fiction, c'était autan vrai.
Cette couleur, cet’image, meilleur que le propre voir, obscurci par le soleil, par la pluie, par quelque nuage.


Plus grand que le voir, plus des pixels que la propre vision optique des eyeux.
Le temp est fragmenté dans les principales instants, les autres, n’ont pas d’importance, car habituellement ces cent vingt minutes racontés pour tout les evenements.
Comme si tout avait commencé dès cet’instant, il semble qu’il a une fois existé. Les erreurs, reponse coherente. Actitudes et actions qui dechaineront l'action suivante.
L'amour. Intense, vrai, en plus des legitimes intensions amoureuses. Parfait, pure, pas convencionel, pas previsible.
La dificulté, la disparité, faite et ordonné. Comme des personnes dicotomiques: le correcte et l'incorrecte.
Une reponse finale, une conclusión, quelque chose a apprendre.
Equilibre pour l'emotion. La façon de s’approcher de l'image, des paysages. Les closes, la velocité, seulement l'essentiel, seulement le resultat du meilleur, le plus intense.

La reaction du corps et du coeur a l'image, au moment, aux couleurs, aux meilleurs instants. Vrai. Absolument vif, vécu!
Cousin et colaborateur: M.H.R.


Imagem: Jackson Pollock, Blue Poles, 1952.

quinta-feira, agosto 31, 2006

A Memória do Real

A Memória do Real

Conversava esses dias com um amigo sobre memória e realidade. Sobre memória, como absorvemos as coisas no mundo, guardamos dentro do nosso cérebro e lidamos com isso no futuro. E quanto mais tempo passa, quanto mais distantes vamos ficando dos acontecimentos guardados, menos sabemos como foi exatamente viver aquele momento. Memória é algo engraçado, para os mais otimistas uma forma de encarar tudo de um jeito bom, para os melancólicos, de forma mais trágica talvez. Acontece que tudo que nos permeia passa por um processo de seleção, de vários tipos, desde fatos sociais, como a cultura e o comportamento da época em que essa memória está sendo construída e documentada através da história, até fatos pessoais e intimistas, como reproduzimos acontecimentos, os nossos e os das pessoas próximas a nós, porque também queremos ter um pouquinho de controle sobre isso. Para então chegar à questão da realidade, qual delas vivemos, como se forma? Existe muitas? Existe uma realidade mais real? Outra questão a se pensar... Quando eu ligo a tevê, quando eu leio um jornal, ou um desses meios de comunicação qualquer que tem como primeiro objetivo nos manter atualizados, informados com o que se passa no presente, me perco ainda mais. Como acumular tanta informação. Metade dela não me diz respeito algum, outra parte me informa e me deixa tão passivo quanto se não soubesse - um furacão na Indonésia, ou a queda de um avião no Canadá - uma parte tenta me fazer entender talvez através de dados e números o porque, por exemplo, do meu país ser o caos que é. Ou o porque de tanta miséria, a corrupção, a taxa de juros, o índice nasdaq, ou a bolsa de valores de Nova Iorque que caiu quando as refinarias de petróleo importado de qualquer um desses países árabes em guerra com o ocidente (do Norte) não conseguiu escoar sua produção, por razões da própria guerra. Conectar isso ao João da Silva que cata papel na portaria do meu prédio para poder sustentar a família inteira que mora num quarto e sala na periferia dessa cidade é pouco provável.

Vejo, nessa mesma televisão, agora em época de campanha eleitoral, os candidatos presidenciáveis e suas fórmulas mágicas nos dizendo que tudo está conectado. Tudo a ver! Economia e sociedade, como não? Por um segundo penso: limitada, só pode ser limitação minha não conseguir ver e compreender algo que para essas pessoas que estão lá no Planalto parece tão obvio. A tal da memória de que falava. Ao se tirar os fatos pessoais, ela serviria para tentar colocar uma ordem na casa, ou seja, nos fazer localizados e a partir disso, autônomos para realizar algumas mudanças em nossas vidas - claro que pra quem acredita em mudanças, pra quem acha que existe algo a ser mudado, para quem é teimoso e um pouco megalômano para pensar sobre isso. Pois, a partir da compreensão do real, é possível contruir sua própria memória, um pouco através do que se lê, das informações dessas mídias, de uma certa sensibilidade também, com analogias, de forma crítica. Porém, cada um ao seu método, estudar um pouco economia faz com que eu teimosamente reafirme a impossibilidade de entender (política) sociedade e (política) economia. Chego a pensar em várias realidades e na verdade acredito mais nessa opção. 

Existe o mundo da economia, ele está necessariamente acima do Estado, apesar de ainda dialogar com o segundo, opera e transita rompendo barreiras e viajando em dólares pelos computadores do mundo. Wall Street é um filme muito interessante e mostra bem isso, não precisei ler nenhum manual de especulador internacional para chegar a essa conslusão, às vezes o cinema pode ser bem elucidativo. Além da política econômica, existe o mundo das conquistas políticas: espaciais, por território, a luta do bem contra o mal, como a América do Norte costuma chamar sua invasão nos países muçulmanos, a re-catequisação dos indios orientais, diga-se povos de países árabes, e a mão do homem branco para mostrá-los a verdadeira salvação, a forma de viver do ocidente e seu modo de tolerar, através muitas vezes da intolerância, uns aos outros.

Estamos tão presentes e a par de tudo através dos meios de comunicação de massa que fica difícil não chamar um muçulmano de terrorista, como se criam as expressões "um xiita", uma pessoa radical, que coisa. Ser radical no mundo ocidental não é coisa boa, temos que ser medianos nos nossos pensamentos, nas nossas ações, a não ser que isso esteja relacionado a ganhos materiais, aí sim, temos carta branca pra radicalizar o corte do pessoal da fábrica da Volkswagen para nos tornarmos mais competitivos no mercado, radicalizar nas leis trabalhistas, quer dizer, flexibilizar, tirar décimo terceiro, fundo de garantia e outras regalias que não condizem mais com o mundo dinâmico que vivemos hoje. Arriscar com a vida de milhares de pessoas para ganhar mais não é uma atitude radical, é ousado.

Para não perder o foco e continuar tentando entender o que não se pode unir; escuto que a economia cresceu um pouco esse ano e a inflação ficou em zero virgula doze porcento em julho, em São Paulo, e o valor de exportação para o mês de Agosto fechou em muitos numeros e leio Bilhões na telinha azul do Jornal Nacional. Me pergunto, o quê significa isso? O que significa essa inflação de valor ridículo inversamente proporcional aos meus oito anos morando em São Paulo e ganhando praticamente a mesma coisa nesse tempo todo, apesar de ter me qualificado cada vez mais profissionalmente, saber que esse salário não paga mais meu aluguel, nem o supermercado, nem a cerveja no Charme, da Augusta. Complexo, verdade? Realidade? Que afeta como, a quem? Os bilhões da exportação, geram emprego, mudam a sociedade, algumas delas com certeza, mas de bem poucos também. 

Então imagino, se já é estranho para alguém da classe média, diga-se, com estudo, formação superior, idazinhas a Europa, lidar com essa desconexão entre as esferas da sociedade, para alguém que nunca saiu da favela, que mora numa casa precária, que estudou - quando estudou - numa escola do ensino da rede pública do estado ou de uma prefeitura, saiu de lá sem saber escrever direito, vai ser no máximo office boy, taxista, porteiro de prédio, faxineira, prostituta, secretária, catador de papel, lixeiro, cobrador de ônibus, pedreiro ou alguma dessas atividades da construção civil, como é assistir ao jornal nacional e o que ficará para construir sua memória. Como é após o Willian Bonner dar Boa Noite! no jornal nacional, ver a novela das oito? Todos aqueles atores tomando água de Côco no Leblon, discutindo problemas existenciais do tipo minha prima transa com meu marido e quer a fortuna do meu pai. Ou algo que aparentemente os identifique mais - a novela mostra a vida dos humildes também - um morador da periferia carioca que trabalha com dignidade de motorista na casa da Suzana Vieira e vai morrer fazendo aquilo, mas é feliz, porque é honesto.

Situação complicada. Não assisto novela, não vejo Jornal Nacional, às vezes passo o olho pelos números só por indignação mesmo e também pra rir um pouco disso tudo, porque chega a ser cômico perceber o que é a informação. Quem vai dizer no que se deve acreditar e ao olhar com crítica para o que se vê, quais as conclusões que se pode tirar.

Cada um sabe o que quer guardar na memória, no processo de seleção estamos todos brigando pra ver o que fica e o que sai. Dentro de nós mesmos corremos o risco de passar a vida acreditando naquilo que construimos e isso pode ter muito pouco de real.
Antes de dormir penso no dia e gosto de fazer esse exercício de re-avaliação, às vezes me espeto com o que vejo, dói quando não sai como esperado, resultados e atitudes que não deveriam ter sido como foram, mas vai fugir? É uma escolha, estamos aqui para escolher mesmo e não paramos de fazer isso mesmo quando gostaríamos. A memória é a forma abstrata de construir nossa realidade, para depois vivermos nela. Continuo vendo muitos mundos paralelos, e o que me interessa guardar está sendo pouco divulgado por aí.

Coragem. Teimosia. Feminismo - um amigo me chamou de feminista dias atrás. Chamo de coerência racional.


Imagem: Francis Bacon, Study for Crouching Nude, 1952.

segunda-feira, agosto 28, 2006

Quando o Plausível Não me Interessa











Paradoxo moderno. Fazer nos dias de hoje significa estar ganhando pra isso, normalmente associado a algo bem desagradável. O fazer bom não é remunerado, te dá muito mais prazer e provavelmente não vai ser reconhecido por muitas pessoas como algo construtivo. Quem é que reconhece o fato de uma rede dessas bem grandes poder te trazer às vezes uma felicidade, só de você deitar nela, tranquilamente, escutar o barulho de qualquer coisa da natureza e ter uma sensação de certeza de algo nessa vida. Apesar de todas as possibilidades do universo, você sabe que o mesmo barulho vai ser feito dali a uma determinada quantidade de tempo, a não ser que o inseto resolva pular proutro lugar, e isso te acalma. Há outros fazeres menos passivos também, como escrever para o amigo que há tempos você não vê contando várias coisas sobre sua vida e perguntando tantas outras para ele. Estes escritos que te consomem, que levam horas para ser feitos e que necessariamente exigem tempo e tranquilidade. Ou o livro que está na sua cabeceira há um tempo e você passa a tarde de terça-feira inteira lendo e ama. Aquele ensaio mais difícil do seu escritor preferido que ficou tão fácil de repente, quando você olhou para a página e viu que o que faltava mesmo era melhor qualidade no dia pra te inspirar e te ajudar a decifrar tudo aquilo.

Dias que passou olhando por detrás da janela quadrada, com a luz fria batendo no rosto, lembrando como era ter flexibilidade para fazer algo inesperado entre as nove da manhã e as cinco da tarde. Dinheiro que se ganha para durante quinze dias no ano - porque hoje não se tira o mês de férias - fazer exatamente esse inesperado. E o resto dele para conseguir sobreviver.

Mas tem o desafio, a ambição, a vontade de vencer. Expressões muito defendidas e reproduzidas para justificar a impossibilidade do lúdico e a obrigação da rotina. Poucas pessoas podem se dar ao luxo de ter desafios profissionais. Pois a maior parte delas está desenvolvendo uma atividade limitada, repetitiva e sem o mínimo de criatividade. Os poucos que podem, devem se considerar muito satisfeitos. A idéia de contruir algo para depois sentir orgulho dessa conquista está hoje pouco associada a valores não palpáveis. O fruto de um trabalho enfadonho e mesquinho pode soar realmente saboroso, então o tempo e desgaste que levou para cultivá-lo garante sabor imediato ao consumi-lo, instantaneamente.

Dai vão se formando concepções de sucesso e felicidade do mundo moderno, para que o homem se perca nele próprio e não consiga reconhecer seu valor a não ser sob esses paradigmas. O mundo em constante transformação constrói prédios cada vez mais altos e televisões cada vez maiores, existe uma coerência mecânica na nossa forma de entender a idéia de progresso através de coisas materiais. Noção de desenvolvimento, de aprimoramento humano, que cai no conceito de se imaginar estar melhor do que antes.


Deve ser muito difícil evoluir, porém. Conflitos humanos ainda tem como fonte moral e ética os mesmos paradoxos de sempre. Não evoluiu, nem mudou os adjetivos. Por trás do condomínio fechado moram os mesmos problemas humanos de um barraco na Vila Sônia. Violência e abuso de poder sempre fizeram parte das relações sociais. Tudo está maior e mais difícil de se identificar, contudo uma mirada mais além consegue revelar as limitações que sempre nos permearam.


Dai é que vem toda desconfiança do que se pode ou não considerar importante, do que aparenta ser bom, do que parece ser a "melhor" atitude, daquilo que poderia significar a escolha menos ou mais certa. Porque na rede, lá deitada, lendo o livro da cabeceira, escrevendo este texto, sem trazer respostas prontas, avaliar valores e referenciais me deixa menos incerta e mais atenta às incrongruências cotidianas. Coloca rumo onde às vezes não existe caminho e me dá liberdade para poder andar sobre ele, mesmo sabendo que muitos outros não o farão.

(Imagem: arquivo pessoal, foto B. Sardi)