quinta-feira, agosto 31, 2006

A Memória do Real


Conversava esses dias com um amigo sobre memória e realidade. Sobre memória, como absorvemos as coisas no mundo, guardamos dentro do nosso cérebro e lidamos com isso no futuro. E quanto mais tempo passa, quanto mais distantes vamos ficando dos acontecimentos guardados, menos sabemos como foi exatamente viver aquele momento. Memória é algo engraçado, para os mais otimistas uma forma de encarar tudo de um jeito bom, para os melancólicos, de forma mais trágica talvez. Acontece que tudo que nos permeia passa por um processo de seleção, de vários tipos, desde fatos sociais, como a cultura e o comportamento da época em que essa memória está sendo construída e documentada através da história, até fatos pessoais e intimistas, como reproduzimos acontecimentos, os nossos e os das pessoas próximas a nós, porque também queremos ter um pouquinho de controle sobre isso. Para então chegar à questão da realidade, qual delas vivemos, como se forma? Existe muitas? Existe uma realidade mais real? Outra questão a se pensar... Quando eu ligo a tevê, quando eu leio um jornal, ou um desses meios de comunicação qualquer que tem como primeiro objetivo nos manter atualizados, informados com o que se passa no presente, me perco ainda mais. Como acumular tanta informação. Metade dela não me diz respeito algum, outra parte me informa e me deixa tão passivo quanto se não soubesse - um furacão na Indonésia, ou a queda de um avião no Canadá - uma parte tenta me fazer entender talvez através de dados e números o porque, por exemplo, do meu país ser o caos que é. Ou o porque de tanta miséria, a corrupção, a taxa de juros, o índice nasdaq, ou a bolsa de valores de Nova Iorque que caiu quando as refinarias de petróleo importado de qualquer um desses países árabes em guerra com o ocidente (do Norte) não conseguiu escoar sua produção, por razões da própria guerra. Conectar isso ao João da Silva que cata papel na portaria do meu prédio para poder sustentar a família inteira que mora num quarto e sala na periferia dessa cidade é pouco provável.
Vejo, nessa mesma televisão, agora em época de campanha eleitoral, os candidatos presidenciáveis e suas fórmulas mágicas nos dizendo que tudo está conectado. Tudo a ver! Economia e sociedade, como não? Por um segundo penso: limitada, só pode ser limitação minha não conseguir ver e compreender algo que para essas pessoas que estão lá no Planalto parece tão obvio. A tal da memória de que falava. Ao se tirar os fatos pessoais, ela serviria para tentar colocar uma ordem na casa, ou seja, nos fazer localizados e a partir disso, autônomos para realizar algumas mudanças em nossas vidas - claro que pra quem acredita em mudanças, pra quem acha que existe algo a ser mudado, para quem é teimoso e um pouco megalômano para pensar sobre isso. Pois, a partir da compreensão do real, é possível contruir sua própria memória, um pouco através do que se lê, das informações dessas mídias, de uma certa sensibilidade também, com analogias, de forma crítica. Porém, cada um ao seu método, estudar um pouco economia faz com que eu teimosamente reafirme a impossibilidade de entender (política) sociedade e (política) economia. Chego a pensar em várias realidades e na verdade acredito mais nessa opção. Existe o mundo da economia, ele está necessariamente acima do Estado, apesar de ainda dialogar com o segundo, opera e transita rompendo barreiras e viajando em dólares pelos computadores do mundo. Wall Street é um filme muito interessante e mostra bem isso, não precisei ler nenhum manual de especulador internacional para chegar a essa conslusão, às vezes o cinema pode ser bem elucidativo. Além da política econômica, existe o mundo das conquistas políticas: espaciais, por território, a luta do bem contra o mal, como a América do Norte costuma chamar sua invasão nos países muçulmanos, a re-catequisação dos indios orientais, diga-se povos de países árabes, e a mão do homem branco para mostrá-los a verdadeira salvação, a forma de viver do ocidente e seu modo de tolerar, através muitas vezes da intolerância, uns aos outros.
Estamos tão presentes e a par de tudo através dos meios de comunicação de massa que fica difícil não chamar um muçulmano de terrorista, como se criam as expressões "um xiita", uma pessoa radical, que coisa. Ser radical no mundo ocidental não é coisa boa, temos que ser medianos nos nossos pensamentos, nas nossas ações, a não ser que isso esteja relacionado a ganhos materiais, aí sim, temos carta branca pra radicalizar o corte do pessoal da fábrica da Volkswagen para nos tornarmos mais competitivos no mercado, radicalizar nas leis trabalhistas, quer dizer, flexibilizar, tirar décimo terceiro, fundo de garantia e outras regalias que não condizem mais com o mundo dinâmico que vivemos hoje. Arriscar com a vida de milhares de pessoas para ganhar mais não é uma atitude radical, é ousado.
Para não perder o foco e continuar tentando entender o que não se pode unir; escuto que a economia cresceu um pouco esse ano e a inflação ficou em zero virgula doze porcento em julho, em São Paulo, e o valor de exportação para o mês de Agosto fechou em muitos numeros e leio Bilhões na telinha azul do Jornal Nacional. Me pergunto, o quê significa isso? O que significa essa inflação de valor ridículo inversamente proporcional aos meus oito anos morando em São Paulo e ganhando praticamente a mesma coisa nesse tempo todo, apesar de ter me qualificado cada vez mais profissionalmente, saber que esse salário não paga mais meu aluguel, nem o supermercado, nem a cerveja no Charme, da Augusta. Complexo, verdade? Realidade? Que afeta como, a quem? Os bilhões da exportação, geram emprego, mudam a sociedade, algumas delas com certeza, mas de bem poucos também. Então imagino, se já é estranho para alguém da classe média, diga-se, com estudo, formação superior, idazinhas a Europa, lidar com essa desconexão entre as esferas da sociedade, para alguém que nunca saiu da favela, que mora numa casa precária, que estudou - quando estudou - numa escola do ensino da rede pública do estado ou de uma prefeitura, saiu de lá sem saber escrever direito, vai ser no máximo office boy, taxista, porteiro de prédio, faxineira, prostituta, secretária, catador de papel, lixeiro, cobrador de ônibus, pedreiro ou alguma dessas atividades da construção civil, como é assistir ao jornal nacional e o que ficará para construir sua memória. Como é após o Willian Bonner dar Boa Noite! no jornal nacional, ver a novela das oito? Todos aqueles atores tomando água de Côco no Leblon, discutindo problemas existenciais do tipo minha prima transa com meu marido e quer a fortuna do meu pai. Ou algo que aparentemente os identifique mais - a novela mostra a vida dos humildes também - um morador da periferia carioca que trabalha com dignidade de motorista na casa da Suzana Vieira e vai morrer fazendo aquilo, mas é feliz, porque é honesto.
Situação complicada. Não assisto novela, não vejo Jornal Nacional, às vezes passo o olho pelos números só por indignação mesmo e também pra rir um pouco disso tudo, porque chega a ser cômico perceber o que é a informação. Quem vai dizer no que se deve acreditar e ao olhar com crítica para o que se vê, quais as conclusões que se pode tirar.
Cada um sabe o que quer guardar na memória, no processo de seleção estamos todos brigando pra ver o que fica e o que sai. Dentro de nós mesmos corremos o risco de passar a vida acreditando naquilo que construimos e isso pode ter muito pouco de real.
Antes de dormir penso no dia e gosto de fazer esse exercício de re-avaliação, às vezes me espeto com o que vejo, dói quando não sai como esperado, resultados e atitudes que não deveriam ter sido como foram, mas vai fugir? É uma escolha, estamos aqui para escolher mesmo e não paramos de fazer isso mesmo quando gostaríamos. A memória é a forma abstrata de construir nossa realidade, para depois vivermos nela. Continuo vendo muitos mundos paralelos, e o que me interessa guardar está sendo pouco divulgado por aí.
Coragem. Teimosia. Feminismo - um amigo me chamou de feminista dias atrás. Chamo de coerência racional.
Imagem: Francis Bacon, Study for Crouching Nude, 1952.

segunda-feira, agosto 28, 2006

Quando o Plausível Não me Interessa


Paradoxo moderno. Fazer nos dias de hoje significa estar ganhando pra isso, normalmente associado a algo bem desagradável. O fazer bom não é remunerado, te dá muito mais prazer e provavelmente não vai ser reconhecido por muitas pessoas como algo construtivo. Quem é que reconhece o fato de uma rede dessas bem grandes poder te trazer às vezes uma felicidade, só de você deitar nela, tranquilamente, escutar o barulho de qualquer coisa da natureza e ter uma sensação de certeza de algo nessa vida. Apesar de todas as possibilidades do universo, você sabe que o mesmo barulho vai ser feito dali a uma determinada quantidade de tempo, a não ser que o inseto resolva pular proutro lugar, e isso te acalma. Há outros fazeres menos passivos também, como escrever para o amigo que há tempos você não vê contando várias coisas sobre sua vida e perguntando tantas outras para ele. Estes escritos que te consomem, que levam horas para ser feitos e que necessariamente exigem tempo e tranquilidade. Ou o livro que está na sua cabeceira há um tempo e você passa a tarde de terça-feira inteira lendo e ama. Aquele ensaio mais difícil do seu escritor preferido que ficou tão fácil de repente, quando você olhou para a página e viu que o que faltava mesmo era melhor qualidade no dia pra te inspirar e te ajudar a decifrar tudo aquilo.
Dias que passou olhando por detrás da janela quadrada, com a luz fria batendo no rosto, lembrando como era ter flexibilidade para fazer algo inesperado entre as nove da manhã e as cinco da tarde. Dinheiro que se ganha para durante quinze dias no ano - porque hoje não se tira o mês de férias - fazer exatamente esse inesperado. E o resto dele para conseguir sobreviver.
Mas tem o desafio, a ambição, a vontade de vencer. Expressões muito defendidas e reproduzidas para justificar a impossibilidade do lúdico e a obrigação da rotina. Poucas pessoas podem se dar ao luxo de ter desafios profissionais. Pois a maior parte delas está desenvolvendo uma atividade limitada, repetitiva e sem o mínimo de criatividade. Os poucos que podem, devem se considerar muito satisfeitos. As idéia de contruir algo para depois sentir orgulho dessa conquista está hoje pouco associada a valores não palpáveis. O fruto de um trabalho enfadonho e mesquinho pode ser realmente saboroso, então o tempo e desgaste que levou cultivá-lo não prevalece ao sabor imediato de consumi-lo, mesmo que por um instante.
Dai vão se formando concepções de sucesso e felicidade do mundo moderno, para que o homem se perca nele próprio e não consiga reconhecer seu valor a não ser sob esses paradigmas. O mundo em constante transformação constrói prédios cada vez mais altos e televisões cada vez maiores, existe uma coerência mecânica na nossa forma de entender a idéia de progresso através de coisas materiais. Noção de desenvolvimento, de aprimoramento humano, que cai no conceito de se imaginar estar melhor do que antes.
Deve ser muito difícil evoluir, porém. Conflitos humanos ainda tem como fonte moral e ética os mesmo valores de sempre. Não evoluiu, nem mudou os substantivos. Por trás do condomínio fechado moram os mesmos problemas humanos de um barraco na Vila Sônia. Violência e abuso de poder sempre fizeram parte das relações sociais. Tudo está maior e mais difícil de se identificar, contudo uma mirada mais além consegue revelar as limitações que sempre nos permearam.
Dai é que vem toda desconfiança do que se pode ou não considerar importante, do que aparenta ser bom, do que parece ser a "melhor" atitude, daquilo que poderia significar a escolha menos ou mais certa. Porque na rede, lá deitado, lendo o livro da cabeceira, escrevendo este texto, sem trazer respostas prontas, avaliar valores e referenciais nos deixa menos incertos e mais atentos às incrongruências cotidianas. Coloca rumo onde às vezes não existe caminho e nos dá liberdade para poder andar sobre ele, mesmo sabendo que muitos outros não o farão.